TRABALHO: Análise de Entrevista – Isabelle

“Me chamo Isabelle Santana Gomes, nasci em São Paulo-SP, dia 19/11/1996, mesmo dia em que meus pais completavam 2 anos de casamento. Sou mesmo um presentinho [rindo]. Não fui, como gostam de dizer, “planejada”. Quando minha mãe engravidou, meus pais ainda terminavam de construir nossa casa – no mesmo terreno da casa da minha avó paterna. Dormíamos num único quarto, os 3, até meus 5 anos de idade, quando eu decidi ter um irmão. Digo “decidi” porque minha palavra sempre foi forte em casa. Não nego meu sol em escorpião. Assim que a ideia se implantou no meu cérebro, já era. Eu ia ter um irmão. E assim foi. Completei 6 anos em novembro, ele nasceu em janeiro do ano seguinte. Foi quando minha avó deu uma forcinha e foi construído outro quarto, pra eu dividir com o Luan.

Nesse primeiro trecho da entrevista, há dois pontos interessantes para análise: (a) a força da opinião de uma criança (b) a influência dos signos. 

(a). É nítida a diferença entre as gerações da minha avó e da Isabelle nesse quesito. Antigamente, quando minha avó era criança (ou até mesmo adolescente), era bastante difícil se ter voz e ser levada em consideração dentro de casa. Toda a lógica da família se baseava naquela ideia de “respeito aos pais” – o que implicava não discutir, não demonstrar suas opiniões; apenas obedecer e se calar. Ao dizer que sua palavra “sempre foi forte em casa”, Isabelle revela que houve uma quebra desse paradigma; mostra que, sim, as crianças devem ter o poder de se expressar. 

(b). Todo mundo já deve ter sido questionado sobre qual o seu signo; e isso demonstra que a astrologia tem ganhado espaço nos diálogos cotidianos. “A maioria das pessoas não se depara por mera curiosidade científica com a astrologia, mas sim porque se encontra numa situação em que espera da astrologia respostas à perguntas da sua vida” (STUCKRAD, 2007). Pela leitura de livros, conversas com os amigos ou aconselhamentos, os indivíduos travam conhecimento com o sistema astrológico e o aplicam na própria biografia e situação de vida. Como a astrologia – mesmo em sua orientação vinculada à psicologia do inconsciente – não oferece respostas prontas, é muito grande a probabilidade de elaborar interpretações e, com isso, criar uma experiência de evidência. Pela comunicação e confirmação recebida por parte de outros, essa evidência se consolida e se torna uma convicção. Stenger (1993), chamou esse processo de “a construção social de realidades ocultas”. Diante desse panorama, não é de admirar que uma ocupação crescente com a astrologia leve a uma maior evidência. Ao contrário: a construção social de identidade tem sempre – também fora da astrologia – um forte elemento comunicativo e narrativo (STUCKRAD, 2007). 

Sempre fui uma criança muito ativa, gostava de esportes e de subir pelas paredes da casa (literalmente). Minha família costumava ir bastante a clubes, parques, shopping, praia. Minha mãe tem 7 irmãos, tenho tantos primos que mal consigo contar, e a maioria das minhas lembranças infantis tem eles no meio. Meu pai tem 2 irmãos, mais alguns primos pra conta. Sou muito ligada à minha família, já que sempre se fizerem muito presentes em minha vida.

Aos 6 anos de idade, em uma visita aos meus tios que moram em Minas Gerais, conheci o laboratório de um deles, que é médico patologista. Foi ali que eu decidi que, quando crescesse, não ia mais ser a moça que faz os lanches do mc donald’s, mas sim médica. Minha prima Georgia, 2 anos mais nova que eu, queria brincar com as barbies que tínhamos ganhado de natal e de pega-pega. Eu só queria ficar dentro daquele laboratório, vendo um monte de órgãos e fetos dentro de potes cheio de formol. Bizarro, mas bem minha cara mesmo, né?! [rindo]. Desde então, nunca mudei de ideia.

Esse parágrafo diz, de certa forma, sobre (c) infância e gênero.

(c). Enquanto sua prima Georgia, queria brincar com barbies e pega-pega – brincadeiras consideradas “normais” da infância, a Isabelle já passou por um momento diferente: foi com 6 anos que decidiu o que queria fazer da sua vida [ser médica]. Isso, por sua vez, demonstra uma imposição de “visão do futuro” que nos é dada quando ainda somos pequenos. Crianças escutam sobre trabalho, estudo e profissões diariamente. E quando se é mulher, isso fica ainda mais evidente. Meninas são influenciadas à brincar sempre de boneca e de casinha – remetendo à isso o papel da mulher como “dona de casa” e “responsável pelos filhos”. Trata-se, portanto, de uma discussão sobre gênero. Trata-se de uma discussão sobre como os brinquedos que lotam as prateleiras das lojas contribuem para a reprodução de estereótipos e para a manutenção de desigualdades entre os gêneros. Se os meninos recebem dos adultos brinquedos que estimulam o espírito aventureiro, a força e a liberdade, enquanto as meninas são presenteadas com itens que remetem ao universo doméstico, à docilidade e à preocupação com a aparência física, estabelece-se, então, uma nítida discrepância entre as possibilidades (de imaginar, de sonhar, de ser) que se apresentam a cada gênero (LAMAS, 2014).

Saí do ensino médio em 2013, meu desempenho não foi bom no Enem. Nos últimos 3 anos (2014-2016) fiz cursinho. Não fui bem sucedida nas primeiras duas tentativas, na última cheguei bem perto. Apesar do apoio dos meus pais até então, agora eles relutam em continuam me ajudando a estudar. Talvez o medo de não dar certo atinja eles também, né? Talvez seja isso. Mas vou tentar de novo. Tenho absoluta certeza de que nasci pra usar um jaleco branco e receitar dipirona pros chatos que lotam o hospital com qualquer dor de cabeça [chorando].

Nesse parágrafo, o ponto principal de análise é (d) a pressão advinda do vestibular. 

(d). Vestibular é a prova “de entrada” para a universidade – mas, ironicamente, no Brasil, o vestibular é muito mais uma porta de saída. Isso porque a maioria dos estudantes que presta vestibular para uma universidade pública não conquista a vaga. A Isabelle, assim como muitos outros estudantes, está passando por uma constante pressão imposta pela sociedade. Segundo Garcia (2014), essa é uma fase de busca pelo sentido da vida com todas as angústias e ansiedades próprias desse período e, por outro lado, uma exigência de que o estudante deve escolher, nesse momento, o que deseja ser para o resto da vida. É, portanto, uma decisão séria e pesada demais. [ninguém, aos 20 anos de idade, tem a obrigação de saber tudo o que deseja para o seu futuro!]. Além disso, essa pressão toda que se põe dentro do estudante, tanto da exigência pessoal como a que vem de fora, é algo que, realmente, pode trazer consequências em termos de uma ansiedade maior e sintomas, às vezes, de pânico. Esse é um assunto que, do meu ponto de vista, merece relevância nas discussões acerca de políticas públicas. 

Aos 16 anos tive meu primeiro namorado, Estevão. Éramos da mesma escola e namoramos por quase dois anos, mas com o fim do ensino médio o amor acabou também [rindo]. Logo em seguida, Ivan. O conheci por amigos em comum e namoramos por dois anos também. Já tem um tempo que estamos separados mas continuamos convivendo, já que metade dos meus amigos são amigos dele e vice-versa. Apesar de terem sido relacionamentos relativamente longos, nunca chegou ao ponto de pensarmos em casamento ou nada mais sério.

Nesse trecho é possível traçar um paralelo sobre (e) relacionamentos entre as gerações de ambas entrevistadas. 

(e). Na época em que minha avó era adolescente, o namoro tinha como objetivo o casamento e a formação da família. Havia uma ordem muito clara de que todos deveriam se casar e quem não o fizesse era muito mal visto. Com a minha geração [e da Isabelle] isso não ocorre. Isso me remete à obra “Amor Líquido” do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. É neste livro que o autor expõe sua análise de maneira mais simples e próxima do cotidiano, analisando as relações amorosas e algumas particularidades da “modernidade líquida”. Vivemos tempos líquidos, nada é feito para durar. As relações se misturam e se condensam com laços momentâneos, frágeis e volúveis. Num mundo cada vez mais dinâmico, fluído e veloz. 

Bauman – Vídeo

Logo após completar 18 anos, depois do fim do primeiro ano de cursinho, fiz minha primeira viagem internacional. Uma prima tinha se mudado com o marido pra República Tcheca a trabalho há alguns meses, e eu sempre quis conhecer a Europa “velha”, era uma oportunidade que eu não podia perder! Tudo aconteceu muito rápido, em uma semana meus pais compraram as passagens, resolveram tudo e eu fui. Confesso que fiquei um pouco receosa com a ideia de percorrer 10.000 km sozinha, mas no geral sempre fui mais destemida que medrosa, então peguei minhas malas e fui! O inglês que eu aprendi com o intuito de poder casar com um dos Jonas Brothers me foi muito útil [rindo]. Foi uma experiência e tanto. Conheci Brno, a cidade da minha prima na República Tcheca (que foi meu lugar preferido), Paris, Londres, Praga, Viena. Foi 1 mês em que vivi coisas encantadoras, visitei lugares históricos que me emocionaram, aprendi e cresci muito. Não vejo a hora de poder voltar.

Hoje, com 20 anos, enxergo o quão privilegiada sou, em muitos pontos. Nunca fui rica, mas meus pais se esforçaram e puderam pagar escola particular até o fim do ensino fundamental pra mim. Não me deixavam faltar aula, me ajudavam na lição de casa, me incentivaram a fazer prova pra tentar entrar em uma escola com ensino médio técnico. Passei em segundo lugar. Não me deixaram desistir da escola, dizendo incontáveis vezes que “estudos em primeiro lugar”. Ainda não sou mãe, mas repito isso pro meu irmão mais novo, agora. Ele ainda não sabe o que quer ser quando crescer (o que é irônico, porque já está mais alto que eu), mas já sabe que vai ter que se esforçar. Meus pais não tiveram esse tipo de suporte. Meus avós então, nem se fala. Imagina que eles pensavam em ser médicos? Era coisa pra gente riquíssima, utopia. Hoje tenho acesso a várias formas de ingresso, não é um sonho impossível. Acho incrível pensar que a próxima geração será muito mais preparada, tecnológica e aberta à estilos de vida que não eram considerados usuais até pouco tempo. Espero ter filhos pra vê-los no participar disso. Não vejo a hora de recitar o clássico poema “estudos em primeiro lugar” pra eles também.

Por fim, nesse parágrafo é possível analisar dois pontos: (f) a noção de privilégios sociais e (g) Cotas. 

(f).  Os privilégios podem ser observados nas mais remotas sociedades e continuam evidentes nas atuais. Sempre com o suporte de validade fornecido pelo direito positivo, seja para dar regalias aos membros de grupos dominantes ou para promover políticas de igualdade (GOMES, 2010). Naturalmente, os privilégios podem ser usados para fins mais, menos ou nada democráticos. O dicionário traz várias acepções do termo privilégio: “situação de superioridade, amparada ou não por lei ou costumes, decorrente da distribuição desigual do poder político e/ou econômico”; “direito, vantagem, prerrogativa, válidos apenas para um indivíduo ou um grupo, em detrimento da maioria”; ou “riqueza, conforto, bem material ou espiritual a que só uma minoria tem acesso”. Tratar sobre privilégios é, portanto, tratar de um debate gigantesco, ainda mais em uma sociedade tão desigual quanto a brasileira. Mas, nesse caso, levando em consideração a fala da entrevistada, o privilégio citado é referente à educação. Ao dizer que, mesmo não sendo rica, os pais se esforçaram e conseguiram pagar escolas particulares até um ponto de sua vida, Isabelle evidencia uma discussão importante: ensino público x ensino privado no Brasil.  Segundo estimativas de Barros, Henriques e Mendonça (2000), a expansão da educação influencia significativamente na redução do crescimento populacional, na queda da mortalidade infantil e no aumento da expectativa de vida. Nesse sentido, a importância de um sistema educacional de qualidade e eficiente, que realmente possibilite um adequado aprendizado à população, é inquestionável. No entanto, sabe-se que, em nosso país, há uma grande disparidade entre os colégios privados e públicos – o que configura um privilégio daqueles que possuem melhores oportunidades. 

(g). Ao dizer “hoje tenho acesso a várias formas de ingresso”, Isabelle está se referindo à política de Cotas. Criada para ser uma das principais ferramentas de ampliação das oportunidades sociais e educacionais no Brasil, a Lei nº 12.711 foi sancionada em agosto de 2012 e, desde então, vem lutando para ser precursora de mudanças significativas na democratização do acesso ao ensino superior e na redução da desigualdade social no país. Voltada para estudantes que cursaram o ensino médio, integralmente, na rede pública, oriundos de família de baixa renda e autodeclarados pretos, pardos e indígenas, a Lei de Cotas reserva, no mínimo, 50% das vagas disponíveis nas universidades e institutos federais, em cada processo seletivo, curso e turno, para este público. Num país onde os preconceitos e a discriminação racial não foram zerados, ou seja, onde os alunos brancos pobres e negros pobres ainda não são iguais, pois uns são discriminados uma vez pela condição socioeconômica e os outros são discriminados duas vezes pela condição racial e pela condição socioeconômica (MUNANGA, 2001), é que se dá a importância da implementação de políticas de ação afirmativa, entre as quais se encontra a experiência das Cotas, que, pelos resultados de outros países, se afirmou como um instrumento veloz de transformação, sobretudo no domínio da mobilidade socioeconômica.

Levo pra vida (e na pele, há alguns meses) a frase “o carrossel nunca para de girar”, de Grey’s Anatomy, minha série preferida. Minha interpretação é sobre não desistir. Às vezes as coisas não dão certo e a gente fica desesperado, mas o carrossel não para de girar. Ele vai dar voltas, e as coisas vão mudar. Em algum ponto ele vai girar na velocidade certa, pro lado certo, e a vida vai ser o que a gente sempre sonhou.”

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