TRABALHO: Análise de Entrevista – Olga

“Meu nome é Olga Gobolin Bellei, tenho 79 anos, nasci no dia 07 de outubro de 1937 na cidade de São José do Rio Preto. Meus pais são José Gubolin e Angelina Briani. Minha mãe era italiana, veio da Itália para o Brasil. Meu pai era brasileiro, nasceu aqui, mas tinha descendência italiana. Tenho 5 irmãos: Nené (Ângelo), Carola (Carolina), Farda (Mafalda), Lindo (Armelindo) e Nego (Valdomiro).

Nesse primeiro trecho da entrevista há dois pontos interessantes de se analisar: (a) o ano de 1937 e (b) a questão da imigração italiana no Brasil.

(a). O período autoritário que ficou conhecido como Estado Novo teve início no dia 10 de novembro de 1937 – um mês após o nascimento de minha avó – com um golpe liderado pelo próprio presidente Getúlio Vargas. Para que ele fosse possível, foi preciso eliminar as resistências existentes nos meios civis e militares e formar um núcleo coeso em torno da ideia da continuidade de Vargas no poder. Esse processo se desenvolveu, principalmente, ao longo dos anos de 1936 e 1937, impulsionado pelo combate ao comunismo e por uma campanha para a neutralização do então governador gaúcho Flores da Cunha, considerado, por seu poder político e militar, um obstáculo ao continuísmo de Vargas e à consolidação de um Exército forte, unificado e impermeável à política. Essa ditadura estava prevista na Constituição, que legitimava os poderes absolutos do ditador, enquanto direitos humanos eram recorrentemente violados pelo aparelho repressor do Estado – a Polícia Especial. A Constituição de 1937, que recebeu apelido de Polaca, era autoritária e concedia ao governo poderes praticamente ilimitados. 

(b). Entre 1870 e 1920, momento áureo do largo período denominado como “Grande Imigração”, os italianos corresponderam a 42% do total dos imigrantes entrados no Brasil. Dentre os principais motivos que os trouxeram para o país estavam: a crise econômica na Itália, devido ao período da Revolução Industrial na Europa; a busca por oportunidades e perspectivas novas de vida e trabalho; a necessidade de mão-de-obra qualificada para substituir a mão-de-obra escrava; a necessidade do Governo brasileiro em embranquecer a população nacional, já que a maioria era negra; e a necessidade do Governo brasileiro em colonizar terras, principalmente no sul do país. À medida que o número de imigrantes e seus descendentes ia crescendo, o Brasil modificava os seus costumes, assim como os imigrantes modificavam os seus. Uma das maiores contribuições dos italianos para a cultura brasileira foi a introdução de elementos típicos no catolicismo [como festas e santos de devoção] – esses elementos são bastante nítidos nas práticas religiosas de minha avó. Além disso, a criação do time para qual minha vó, eu e minha mãe torcemos – Sociedade Esportiva Palmeiras – também é fruto desse processo imigratório, visto que, a criação do time em 1914 se deu com o intuito de aproximar e unificar os imigrantes italianos que viviam na cidade de São Paulo.

Na minha infância, eu brincava com as minhas coleguinhas, mas na maioria das coisas não tinha as regalias que as crianças têm hoje. Eu comecei a trabalhar com 7 anos puxando enxada pequena já na roça – meu pai comprava uma enxadinha para mim e para meus irmãos. Aí a gente trabalhava na roça, né? Chegava domingo, lá não tinha onde passear, a vila mais perto chamava Ipiguá, mas ainda era longe de onde a gente morava. Então, às vezes a gente ia de domingo assistir à missa lá. De domingo, quando a gente não tinha o que fazer e não tinha onde passear, a gente ia embaixo dos pés de manga e catava manga pra chupar e ficava lá contando lorota, uma falava uma coisa, a outra falava outra, a gente ria, brincava de boneca de pano e de espiga de milho. Minhas melhores amigas nessa época eram a Sebastiana e a Jandira – a gente viveu uns tempos junto, depois cada uma foi pra um lado, se mudaram, aí eu fiquei sem colega lá, porque na roça uma casa é muito longe da outra e todo mundo trabalhava. Eu vivia num sítio, tinha égua, tinha cavalo, tinha porco. Mas o sítio não era do meu pai, né? O sítio era do japonês. Na minha infância eu também ia pra escola, estudei só os dois primeiros anos do primário. Pra chegar lá era bem difícil, tinha que atravessar córrego, pastos com vaca brava, chuva e sol.

Esse parágrafo nos diz muito sobre (c) a forma como se dá o trabalho na roça e sobre (d) a questão da educação.

(c). O trabalho é um componente constituinte da sociedade camponesa e caracteriza-se por um valor simbólico de preciosa representação social, remetendo-se a identidade, a inserção, a honra e a integridade individual. O trabalho, enquanto virtude ética, conforme Renk (2000), remete ao ofício da terra e na terra como uma atividade nobre, pois escavacá-la, domá-la e tirar os frutos era um trabalho étnico, em oposição aos outros. Por meio dele, entende-se que existe o potencial de proporcionar avanço, progresso ou desenvolvimento de determinado território. O trabalho contém, então, diversas simbologias e está arraigado em fortes questões culturais, demográficas, econômicas, políticas, naturais ou tecnológicas. O trabalho no âmbito rural é uma das principais estratégias de reprodução social da família. Designado, muitas vezes, como pesado, difícil, sacrificante e desgastante, constitui o cerne de diferenciação interna das propriedades familiares. Tal condição onerosa de trabalho está, para Tedesco (2013), ligada a tradição, sendo compreendida como: “a recriação de representações simbólicas e práticas sociais de um passado de trabalho penoso, de sacrifícios que proporcionam significados e valorizações à vida dos pequenos agricultores”. Os elementos presentes no discurso sobre o trabalho rural, como a autodesvalorização, é, por sua vez, processo constituinte de um denegrimento histórico de imagem do homem rural. Para José de Souza Martins (2005), a concepção de atraso daqueles que vivem no campo é um preconceito histórico que foi herdado do trabalho rural na escravidão. Por isso, o trabalho agrícola se tornou uma marca de inferioridade social. 

O trabalho na roça é, portanto, sem dúvida nenhuma, uma tarefa árdua e penosa devido à exposição solar e o emprego da força física – fato que fica bastante evidente nas falas de minha avó. Além disso, em geral, a gestão do trabalho na roça é complexa, evidenciando a indivisibilidade entre trabalho e lazer, pois no seio da família rural essas atividades se conectam e são interdependentes. 

(d). É bastante notável na história de vida da minha avó como a educação era um fator “secundário” em sua época – tendo em vista que ela só estudou os dois primeiros anos do primário. Segundo Raymundo de Lima (2010), os pais de antigamente levavam os filhos para trabalhar, para adquirir um ofício, ainda crianças. O estudo ficava em segundo plano, ou, de acordo com a mentalidade da época, era ignorado. Em contrapartida, os pais de hoje preferem ver os filhos só estudando, porque trabalhar é “assunto para só depois da faculdade – se tiver emprego, é claro. Obviamente, essa cultura atual é reforçada pela lei que proíbe o trabalho de menores de idade” (LIMA, 2010). Os pais de antigamente achavam que os filhos tinham que crescer logo para se virar na vida, ir à luta, que era considerada dura e cheia de desafios. Além disso, as condições para o estudo eram péssimas: para chegar à escola [que não ficava próxima à sua residência], era preciso atravessar córregos e pastos com vacas bravas – isso, de certa forma, também influenciou minha avó a abandonar a escola ainda cedo. Não havia circunstâncias mínimas para essa continuidade. 

Quando eu tinha 13 anos, conheci o meu marido, Vaefro Bellei. Aí namorei até os 17 e depois casei. A época do namoro foi boa, mas a mãe ficava junto na sala, fazendo o crochêzinho dela e dando uma olhada pra ver se a gente tava pegando na mão [rindo]. No dia 04 de fevereiro de 1956, eu e seu avô casamos. Foi um dia muito feliz pra gente. Eu tava com aquele vestido lindo de noiva, com meus pais e toda a família reunida. Aí nesse ano mesmo, eu tive minha menininha, a Marlene. Quando ela tava com 10 meses, ela ficou doente, o médico disse que deu meningite nela. Aí ela faleceu com 10 meses. Foi uma coisa muito triste pra mim, pro meu marido, pros avós [chorando]. Ela começou a sentir mal, eu e minha sogra levamos ela pro hospital. Lá eles aplicaram uma injeção nela e daí a pouco ela tava morta. Foi erro médico, eu fiquei muito desesperada. E não tinha recurso, né? Eu e minha sogra pegamos ela e levamos pra Ipiguá, morta num táxi. Chegando lá, ninguém sabia o que tinha acontecido. Quando descobriram, virou aquele rebu de choradeira. Aí foi passando, né? Muito triste, mas foi passando até eu recuperar o tempo. Eu recuperei, mas até hoje eu não esqueço.

Esse parágrafo da entrevista é passível de análise em dois pontos: (e) a noção de namoro e casamento (f) relações traumáticas. 

(e). Na época em que minha avó era adolescente, o namoro tinha como objetivo o casamento e a formação da família. Havia uma ordem muito clara de que todos deveriam se casar e quem não o fizesse era muito mal visto.  Nas décadas de 30 a 70, por exemplo, apesar das diferenças temporais, a maioria dos namoros eram padronizados, isto é, havia todo um ritual a ser cumprido pelos enamorados. E, para isso, o casal namorava nos limites da casa da menina, sob os olhares dos pais. Quando muito, tinham seus minutinhos de privacidade no portão. Minha vó, em muitos dos nossos diálogos cotidianos, evidencia as diferenças entre o relacionamento dela e o meu. Ela acha muito estranho o fato de minha mãe me deixar dormir na casa do meu namorado, por exemplo. Vive dizendo: “Nunca vi isso. O namorado é quem tem que vir namorar”. Outra questão que ela sempre levanta é o fato de, com a minha idade, ela já estar casada e com filhos. No entanto, à isso ela sempre acrescenta: “Se cuida! Você é muito nova”. Diante disso, noto que, em alguns pontos, sua mentalidade mudou com o tempo, mas, em outros, ela permanece inalterada. 

(f). Ao contar sobre a morte de sua primeira filha, fica notório na fala de minha avó o quanto esse episódio foi traumático em sua vida. Por esse motivo, acredito que um diálogo acerca da relação entre memória e trauma seja muito significativo. 

De acordo com Maria Paula e Myrian dos Santos (2007), Halbwachs foi o primeiro sociólogo a resgatar o tema da memória para o campo das interações sociais. Rejeitando a ideia corrente em sua época de que a memória seria o resultado da impressão de eventos reais na mente humana, ele estabeleceu a tese de que os homens tecem suas memória a partir das diversas formas de interação que mantêm com outros indivíduos. Assim sendo, determinadas lembranças são reiteradas no seio de famílias, outras entre os operários que trabalham em uma fábrica e assim por diante. Como os indivíduos não pertencem apenas a um grupo e se inserem em múltiplas relações sociais, as diferenças individuais de cada memória expressam o resultado da trajetória de cada um ao longo de sua vida. A memória individual revela apenas a complexidade das interações sociais vivenciada por cada um. 

Além disso, a possibilidade de representação da realidade é sempre um desafio. Indivíduos obtêm refúgio no mundo da atividade, mas nem sempre eles resolvem os problemas relacionados à violência e ao sofrimento, que são componentes básicos da vida humana. Para Freud, o trauma é uma conseqüência ou da natureza devastadora do evento ou do aparato psíquico do indivíduo, que pode não estar preparado para responder a determinados estímulos (FREUD, 1955). Quando um estímulo muito forte nos atinge, nós não somos capazes de responder a estes estímulos. Este estímulo quebra nossas barreiras protetoras e passa a fazer parte de nosso próprio organismo, sem que nós possamos nos defender dele. A consciência reflexiva falha. Como a recordação do evento traumático é na maioria dos casos extremamente fiel, rigorosa em seus detalhes, ela propicia acesso direto ao real. Segundo Friedländer (1992), o que o indivíduo descreve não é uma construção de um evento vivenciado no passado, mas sim o próprio evento. Esta representação do real sem mediação está presente no testemunho de situações traumáticas. Dessa forma, chega-se a conclusão de que não há decisão última em relação à memória e que o esquecimento, em alguns casos, pode ser não uma escolha, como também uma dádiva.

Depois disso, eu fiquei mais um ano, e engravidei de novo, dessa coisa aí [rindo]. Engravidei da sua mãe, a Gleci. Eu tinha 19 anos. Fiquei com muito medo de perder ela também, porque ela nasceu muito doente, mas graças a Deus ficou tudo bem. Aí passados 7 anos, eu engravidei do meu filho que chama José Albano. Esse nasceu saudável [rindo]. Eu e meu marido continuamos trabalhando na roça, a gente levava eles e deixava lá de baixo de um pé de árvore e eles ficavam brincando na terra. De vez em quando eu ia lá dar uma olhadinha pra ver se tava tudo bem. Depois chegava a hora de ir pra casa e ainda tinha que puxar água dos poços pra dar pros bichos e dar comida pras crianças.

Em 1965, eu e minha família viemos pra São Paulo. Meu irmão foi buscar a gente, falando que era melhor a gente vir pra cá, porque a gente ia trabalhar menos e viver da mesma forma com a gente vivia. Aí a gente despachou as coisas no trem de carga em São José do Rio Preto. Quando eu cheguei, vim morar com a minha mãe. Morei uns tempos com ela e depois já separamos as casas entre os irmãos e eu vim morar na minha casinha. Era uma vida melhor do que lá na roça, né? Porque aqui, com o pouco que ganhava, a gente vivia e não trabalhava de baixo daquele sol quente que tinha no interior. Aqui eu trabalhava de fazer faxina nas casas e meu marido entrou numa firma, onde trabalhou até se aposentar. Ele ficou 35 anos na firma. Meu dia-a-dia era ajudar minha mãe em casa com as tarefas domésticas e depois ia fazer as limpezas pra ganhar um dinheirinho. Ganhava pouco, mas eu ganhava todo dia. Aí já deu pra arrumar nossa vidinha melhor. Eu não me arrependo, em momento algum, do que eu passei. No final, deu tudo certo.

Nesse trecho da entrevista, há dois itens importantes para análise: (g) o êxodo rural e (h) as relações homem-trabalho e mulher-trabalho.

(g). O êxodo rural corresponde ao processo de migração em massa da população do campo para as cidades. Trata-se de um elemento diretamente associado a várias dinâmicas socioespaciais, tais como a urbanização, a industrialização, a concentração fundiária e a mecanização do campo. Um dos maiores exemplos de como essa questão costuma gerar efeitos no processo de produção do espaço pode ser visualizado quando analisamos a conjuntura do êxodo rural no Brasil. Sua ocorrência foi a grande responsável pela aceleração do processo de urbanização em curso no país, que aconteceu mais por valores repulsivos do que atrativos, isto é, mais pela saída de pessoas do campo do que pelo grau de atratividade social e financeira das cidades brasileiras. O êxodo rural no Brasil ocorreu, de forma mais intensa, em apenas duas décadas: entre 1960 e 1980, mantendo patamares relativamente elevados nas décadas seguintes e perdendo força total na entrada dos anos 2000. Segundo João Pedro Stedile (2005), os camponeses cumpriram o papel de fornecer mão-de-obra barata para a nascente indústria na cidade. O êxodo rural era estimulado pela lógica do capitalismo, para que os filhos dos camponeses – em vez de sonharem com sua reprodução como camponeses, em vez de lutarem pela terra, pela reforma agrária – se iludissem com os novos empregos e salários na indústria. Foi, assim, um período histórico em que praticamente todas as famílias camponesas enviaram seus filhos para as cidades, no Sudeste e no Sul do país, para serem operários nas fábricas. E foi exatamente isso que aconteceu com o meu avô: saiu da área rural para trabalhar em uma fábrica na cidade. O êxodo contínuo de mão-de-obra camponesa cumpria também o papel de pressionar para baixo o salário médio na indústria. Ou seja, havia sempre um exército industrial de reserva nas portas das fábricas, à espera de emprego. A baixos salários.

(h). Enquanto meu avô trabalhava numa fábrica, minha avó fazia faxinas. Isso nos diz muito sobre a diferenciação de gênero no âmbito do trabalho. 

Ao longo da história da humanidade, variando com o nível cultural e com o estágio evolutivo de cada sociedade, o trabalho tem sido percebido de forma diferenciada. No sistema capitalista, verifica-se que com o surgimento das máquinas, grande marca deste período, as relações de trabalho se modificam substancialmente quando comparado aos períodos anteriores – considerando que as máquinas aparecem concentradas nas mãos dos que detêm o capital, ou seja, nas mãos de poucos, e os que não têm tal recurso, se submetem aos detentores do capital, como única saída para sua sobrevivência. No entanto, em todas as sociedades a forma mais comum da divisão do trabalho refere-se à distinção das atividades que são desenvolvidas pelos homens e pelas mulheres. Trata-se da divisão sexual do trabalho, que se constitui em uma das bases da organização econômica da sociedade e seu impacto se dá, principalmente, nas relações de gênero. 

Para Oliveira (1999) “as relações de gênero não são produtos de um destino biológico, mas, antes de tudo, construções sociais que tem uma base material”. As relações de gênero, portanto, se configuram numa construção social e cultural à medida que representam um processo contínuo da produção do poder de homens e mulheres nas diferentes culturas. De acordo com França e Schimanski (2009), as atividades consideradas femininas estão sempre associadas com a função de reprodução – em geral, são as atividades que estão relacionadas ao espaço privado da família e à produção de valores de uso para o consumo familiar. Já as atividades destinadas à produção social e que são desenvolvidas no espaço público são tidas como uma atribuição masculina. Historicamente a mulher brasileira, sobretudo a mulher branca, é vista como esposa obediente, recolhida e, sobretudo, passiva. Essa imagem da mulher encontra-se nos relatos de Freyre (1984), o qual retrata a família patriarcal brasileira e nela a situação da mulher no período colonial. A mulher branca é descrita como dependente e subordinada, a qual sujeita-se à dominação do pai ou do marido. A mulher desta época, portanto, sempre se dedicou ao espaço privado e o trabalho, para ela, só estava relacionado aos afazeres domésticos.

Além disso, a inserção da mulher em outras atividades de cunho econômico – até mesmo as faxinas feitas por minha avó – acabou por fazer com que a mulher assumisse tanto o trabalho fora de casa como o trabalho doméstico, sobrecarregando-a com uma dupla jornada de trabalho. Como destaca Perez (2001): “responsáveis pela maioria das horas trabalhadas em todo o mundo, as mulheres, generosamente, cuidam das crianças, dos idosos, dos enfermos, desdobrando-se em múltiplos papéis. Esquecidas de si mesmas, acabam por postergar um debate que se faz urgente: a divisão desigual das responsabilidades da família, a injustiça de sozinha, ter de dar conta de um trabalho de que todos usufruem”. Fica evidente, portanto, a sobrecarga de responsabilidades das mulheres em relação aos homens. As mulheres são as principais responsáveis pelas atividades domésticas e pelo cuidado com os filhos e demais familiares, além das suas atividades econômicas.

Outro ponto que merece destaque é o fato de meu avô ter trabalhado até se aposentar. Hoje em dia, em especial para a minha geração, a perspectiva de um dia se aposentar está em risco [devido, por exemplo, à proposta de Reforma da Previdência]. 

Em dezembro de 1978, minha mãe morreu de infarto. Tempos antes meu pai também havia falecido de AVC. Foi muito triste pra mim e pros meus irmãos. Ele era um bom pai e ela uma ótima mãe. Até hoje eu sinto saudade.

Hoje em dia eu tenho 4 netos e um bisneto. Da minha filha Gleci, tem você (Glaucia) com 20 anos e o Gledson – o mais velho – com 30 anos. Do meu filho José, tem a Kamila com 25 anos e a Gabrielle com 22 anos. E tem o Cauê, meu bisneto e alegria da família, que tem 4 anos e é filho do Gledson e da Janaina, sua esposa. Hoje em dia, no auge dos meus 79 anos, eu estou doente né? Tenho uma doença grave, chamada esclerodermia, que é uma doença auto-imune que ataca a pele do corpo e vai encolhendo. Eu estou com as mãos tortas e fazendo fisioterapia, porque eu nem andava de tanta dor que sentia. Mas já estou melhor, graças a Deus. Recuperar total o médico já falou que não tem jeito, mas dá pra fazer tratamento e continuar vivendo. Eu estou tomando remédio direitinho, mas, infelizmente, não posso ajudar minha filha em nada, porque o braço direito quase não mexe – só consigo fazer alguma coisa com o esquerdo. Bom, é isso.

Por fim, nesse parágrafo, o principal ponto de análise é (i) a velhice e a sociedade. 

(i). A velhice “que atinge o ser humano na plenitude de sua existência, modifica sua relação com o tempo, com o mundo e com sua própria história” (CECCONE, 2004). Entretanto, na maioria dos casos, essa mudança que ocorre não é nem um pouco positiva. O idoso, hoje, muitas vezes considerado como um inútil peso morto, sofre a tristeza de quem deixa de ocupar um lugar na vida social. É muito importante, portanto, que a sociedade como um todo dê ao idoso a oportunidade de participar da vida e dos atos da comunidade. Apesar de todas as mudanças fisiológicas, que reduzem a agilidade [tanto intelectual, quanto física], que o envelhecimento provoca num indivíduo, isso não significa que o indivíduo tornou-se inválido e inativo – ou seja, envelhecer não é, necessariamente, adoecer ou acumular uma série de problemas, enfermidades e inaptidões. No entanto, conforme Iolanda Chelucci (2002), “uma vida agitada, excessivamente, no período da infância à juventude provoca danos irrecuperáveis mais tarde”. E é isso que, infelizmente, aconteceu com a minha avó – mulher que trabalhou duro a vida inteira e agora encontra-se doente. 

Agora meu pensamento é um só: eu penso e falo pros meus netos aproveitarem a vida, sem fazer nada de errado, porque a vida da gente é uma surpresa. Na mesma hora que a gente tá bem, cai aí com uma doença que nem eu. Então, tem que aproveitar a vida e ser feliz!”

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