TRABALHO: Olga – Entrevista

Entrevista realizada na casa da minha avó.
Escutá-la sobre sua história de vida, seus momentos felizes, tristes, traumáticos ou difíceis foi uma oportunidade maravilhosa. Me emocionei ao vê-la chorar, ri ao vê-la rir. Foi incrível!



“Meu nome é Olga Gobolin Bellei, tenho 79 anos, nasci no dia 07 de outubro de 1937 na cidade de São José do Rio Preto. Meus pais são José Gubolin e Angelina Briani. Minha mãe era italiana, veio da Itália para o Brasil. Meu pai era brasileiro, nasceu aqui, mas tinha descendência italiana. Tenho 5 irmãos: Nené (Ângelo), Carola (Carolina), Farda (Mafalda), Lindo (Armelindo) e Nego (Valdomiro).

Na minha infância, eu brincava com as minhas coleguinhas, mas na maioria das coisas não tinha as regalias que as crianças têm hoje. Eu comecei a trabalhar com 7 anos puxando enxada pequena já na roça – meu pai comprava uma enxadinha para mim e para meus irmãos. Aí a gente trabalhava na roça, né? Chegava domingo, lá não tinha onde passear, a vila mais perto chamava Ipiguá, mas ainda era longe de onde a gente morava. Então, às vezes a gente ia de domingo assistir à missa lá. De domingo, quando a gente não tinha o que fazer e não tinha onde passear, a gente ia embaixo dos pés de manga e catava manga pra chupar e ficava lá contando lorota, uma falava uma coisa, a outra falava outra, a gente ria, brincava de boneca de pano e de espiga de milho. Minhas melhores amigas nessa época eram a Sebastiana e a Jandira – a gente viveu uns tempos junto, depois cada uma foi pra um lado, se mudaram, aí eu fiquei sem colega lá, porque na roça uma casa é muito longe da outra e todo mundo trabalhava. Eu vivia num sítio, tinha égua, tinha cavalo, tinha porco. Mas o sítio não era do meu pai, né? O sítio era do japonês. Na minha infância eu também ia pra escola, estudei só os dois primeiros anos do primário. Pra chegar lá era bem difícil, tinha que atravessar córrego, pastos com vaca brava, chuva e sol.

Quando eu tinha 13 anos, conheci o meu marido, Vaefro Bellei. Aí namorei até os 17 e depois casei. A época do namoro foi boa, mas a mãe ficava junto na sala, fazendo o crochêzinho dela e dando uma olhada pra ver se a gente tava pegando na mão [rindo]. No dia 04 de fevereiro de 1956, eu e seu avô casamos. Foi um dia muito feliz pra gente. Eu tava com aquele vestido lindo de noiva, com meus pais e toda a família reunida. Aí nesse ano mesmo, eu tive minha menininha, a Marlene. Quando ela tava com 10 meses, ela ficou doente, o médico disse que deu meningite nela. Aí ela faleceu com 10 meses. Foi uma coisa muito triste pra mim, pro meu marido, pros avós [chorando]. Ela começou a sentir mal, eu e minha sogra levamos ela pro hospital. Lá eles aplicaram uma injeção nela e daí a pouco ela tava morta. Foi erro médico, eu fiquei muito desesperada. E não tinha recurso, né? Eu e minha sogra pegamos ela e levamos pra Ipiguá, morta num táxi. Chegando lá, ninguém sabia o que tinha acontecido. Quando descobriram, virou aquele rebu de choradeira. Aí foi passando, né? Muito triste, mas foi passando até eu recuperar o tempo. Eu recuperei, mas até hoje eu não esqueço.

Depois disso, eu fiquei mais um ano, e engravidei de novo, dessa coisa aí [rindo]. Engravidei da sua mãe, a Gleci. Eu tinha 19 anos. Fiquei com muito medo de perder ela também, porque ela nasceu muito doente, mas graças a Deus ficou tudo bem. Aí passados 7 anos, eu engravidei do meu filho que chama José Albano. Esse nasceu saudável [rindo]. Eu e meu marido continuamos trabalhando na roça, a gente levava eles e deixava lá de baixo de um pé de árvore e eles ficavam brincando na terra. De vez em quando eu ia lá dar uma olhadinha pra ver se tava tudo bem. Depois chegava a hora de ir pra casa e ainda tinha que puxar água dos poços pra dar pros bichos e dar comida pras crianças.

Em 1965, eu e minha família viemos pra São Paulo. Meu irmão foi buscar a gente, falando que era melhor a gente vir pra cá, porque a gente ia trabalhar menos e viver da mesma forma com a gente vivia. Aí a gente despachou as coisas no trem de carga em São José do Rio Preto. Quando eu cheguei, vim morar com a minha mãe. Morei uns tempos com ela e depois já separamos as casas entre os irmãos e eu vim morar na minha casinha. Era uma vida melhor do que lá na roça, né? Porque aqui, com o pouco que ganhava, a gente vivia e não trabalhava de baixo daquele sol quente que tinha no interior. Aqui eu trabalhava de fazer faxina nas casas e meu marido entrou numa firma, onde trabalhou até se aposentar. Ele ficou 35 anos na firma. Meu dia-a-dia era ajudar minha mãe em casa com as tarefas domésticas e depois ia fazer as limpezas pra ganhar um dinheirinho. Ganhava pouco, mas eu ganhava todo dia. Aí já deu pra arrumar nossa vidinha melhor. Eu não me arrependo, em momento algum, do que eu passei. No final, deu tudo certo.

Em dezembro de 1978, minha mãe morreu de infarto. Tempos antes meu pai também havia falecido de AVC. Foi muito triste pra mim e pros meus irmãos. Ele era um bom pai e ela uma ótima mãe. Até hoje eu sinto saudade.

Hoje em dia eu tenho 4 netos e um bisneto. Da minha filha Gleci, tem você (Glaucia) com 20 anos e o Gledson – o mais velho – com 30 anos. Do meu filho José, tem a Kamila com 25 anos e a Gabrielle com 22 anos. E tem o Cauê, meu bisneto e alegria da família, que tem 4 anos e é filho do Gledson e da Janaina, sua esposa. Hoje em dia, no auge dos meus 79 anos, eu estou doente né? Tenho uma doença grave, chamada esclerodermia, que é uma doença auto-imune que ataca a pele do corpo e vai encolhendo. Eu estou com as mãos tortas e fazendo fisioterapia, porque eu nem andava de tanta dor que sentia. Mas já estou melhor, graças a Deus. Recuperar total o médico já falou que não tem jeito, mas dá pra fazer tratamento e continuar vivendo. Eu estou tomando remédio direitinho, mas, infelizmente, não posso ajudar minha filha em nada, porque o braço direito quase não mexe – só consigo fazer alguma coisa com o esquerdo. Bom, é isso.

Agora meu pensamento é um só: eu penso e falo pros meus netos aproveitarem a vida, sem fazer nada de errado, porque a vida da gente é uma surpresa. Na mesma hora que a gente tá bem, cai aí com uma doença que nem eu. Então, tem que aproveitar a vida e ser feliz!”

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